AIRE

No último final de semana tive a oportunidade de conhecer um ser muito especial. Uma linda cachorrinha vira-lata chamara Aire. Aire já é uma senhora de 11 e poucos anos, foi sempre criada pela mesma família – que não conheço- e foi passar uma curta temporada de 2 semanas na casa de uma amiga minha, onde tive o prazer de conhecê-la.

 Aire tem olhos pidões, ainda que levemente desconfiados. Late, fica na volta, está sempre por perto, interage bem com as pessoas e com a outra cachorrinha da casa, mas basta tentar encostar a mão nela para fazer carinho que ela se assusta, foge e pode até mesmo gritar. É engraçado, ela chama, pede carinho, mas ao menor sinal de que irá realmente recebê-lo, se assusta e se afasta.

 Não sei o que se passou com Aire ou porque ela é assim. Talvez tenha sido abusada, talvez seja seu instinto ou talvez seja a velhice mesmo. Não sei. Mas não pude deixar de pensar em todas e todos Aires que estão por aí.

Quantas pessoas que, ao menor sinal de carinho, se fecham, se recolhem, se assustam,  não sabem o que fazer. É interessante, mas demoramos a perceber que pode ser mais difícil receber o carinho do que dá-lo.

Quantas vezes não recebemos uma demonstração de carinho de uma maneira um tanto quanto desconfiada, inquieta, com certo incomodo? Tente lembrar de quantas pessoas tu já viu fugir quando confrontado com carinho?

 É quase como se a pessoa não se sentisse merecedora de todo aquele sentimento. Como se o pedido por carinho, por atenção, fosse algo corriqueiro, natural, mas ao receber aquilo que tanto se pediu, quando se tem justamente aquilo que procurou, a surpresa é tão grande, que a única reação é rejeitar justamente aquilo que mais queria. Um autoboicote inconsciente.

 Assim como Aire, não sei a história de ninguém. Não sei o que leva cada um a esse comportamento, ao estranhamento. Não entendo porque algumas pessoas – e eu em algumas ocasiões – respondem ao afeto com medo, com ansiedade, com um pavor que acaba se traduzindo em desprezo.

 O mais curioso é que, depois de fugir, Aire sempre voltava para perto. Continuei tentando fazer carinho em Aire até o último dia. Algumas raras vezes tive sucesso. Tenho a estranha mania de não desistir de tentar.

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