AS HORAS

AS HORASTenho uma tia terapeuta. Na verdade ela não tem formação para isso, mas no momento em que mais precisei de ajuda, foi ela quem mais me ajudou. Não sei se isso a qualificaria como terapeuta, ou se tal qualificação ofenderia aqueles realmente qualificados, mas fiz muitas sessões de terapia em ligações interurbanas e todas elas tiveram o poder de me deixar melhor. E se não me deixaram melhor, me fizeram pensar um pouco sobre o que estava vivendo,  me ajudando a tomar a decisão que considerava mais correta no momento.

Não é fácil ter uma tia terapeuta. É que tias terapeutas dizem a verdade e te conhecem como poucos. Elas conhecem tua família e acabam trazendo toda essa história para seus conselhos. Mas são poderosas e capazes de nos fazer refletir sobre muitas coisas.

Foram muitos conselhos e certamente escreverei sobre todos eles um dia, mas hoje me lembrei de um em particular, um sobre as horas.

Minha tia não é terapeuta e tem como ofício tratar crianças com problemas cardíacos. Não deve ser fácil para nenhuma das partes envolvidas nesse processo. Deve exigir uma força, uma dureza, uma humanidade e uma delicadeza sem tamanho e poucos têm essas características. Lidar com isso por necessidade é uma virtude, uma superação, e por escolha uma verdadeira grandeza da alma. E foi dessas pessoas que tirei um dos melhores conselhos que já recebi na vida.

Não se comparam dores e eu confesso que nunca sofri nada que possa ser considerado genuinamente trágico. Mas quando a dor é nossa, quando o sofrimento é seu, é difícil não tratá-lo como sendo a pior coisa do mundo. É difícil sair do próprio umbigo, olhar para o lado, perceber que há um jeito de se superar aquilo que se está vivendo e que, no final das contas, sempre se supera tudo o que se vive. E foi então que minha tia me contou a frase que ouviu da mãe de um de seus pacientes.

Não tenho filhos. Não imagino como deve ser para uma mãe ouvir que seu filhinho, uma criança, tem uma doença grave no coração. Não posso imaginar como deve ser para alguém ter que dar essa notícia para outra mãe ou tampouco como deve se sentir a criança que está ali, praticamente alheia a tudo aquilo mesmo sendo a peça principal daquele roteiro. Dor sem tamanho. Força sem igual. Não sei como reagiria, espero nunca ter que descobrir.

Mas minha tia escolheu fazer disso sua profissão. Escolheu lidar com as horas difíceis para poder ter as horas boas e tornar um pouco melhor as horas daqueles que, sem ter escolha, se veem no meio de tudo aquilo. Só que vida é mesmo engraçada e as vezes acabamos sendo amparados por aqueles a quem devíamos amparar. E foi assim com uma mãe em específico.

Ao receber a notícia de que seu filho estava doente, muito doente, e que necessitaria de tratamento pesado, longas horas no hospital e que aquilo exigiria bastante dos dois, a mãe calmamente respondeu: “eu sei que vai ser difícil doutora, mas a hora ruim tem os mesmos 60 minutos da hora boa, e ela também vai passar.” Sabedoria dos que sabem, mesmo sem saber que sabem.

Talvez soe como um clichê. Talvez seja uma destas frases de traseira de caminhão que as pessoas dizem só por dizer tantas vezes durante a sua vida. Mas não há nada clichê nessa história. As palavras tem força não só pelas palavras em si, mas também pelo significado que elas ganham em razão de quem as disse. E se uma mãe ao saber da doença de seu filho, tem a lucidez, a força, a coragem de reconhecer que a hora boa e a hora ruim duram os mesmos 60 minutos, então elas realmente duram. Se quando tendo que lidar com uma das maiores dores que uma pessoa pode enfrentar, ela conseguiu perceber que isso também é passageiro e que o único caminho é para frente, então ela tem razão.

E os meus problemas, tão gigantes, tão sufocantes, tão insuportáveis, ficaram pequenos diante da grandeza daqueles que lutam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s