PROTESTAR É PRECISO

PROTESTO

Sábado passado participei de um protesto. Foi meu primeiro protesto in loco. Até então limitara minha revolta às redes sociais e às mesas de bar, onde fotos compartilhadas ou conversas exaltadas me davam a certeza de que se conformar é sempre a pior opção. Ainda assim, nunca tive em mim a desenvoltura ou vontade de participar de um protesto. Isso até sábado.

O protesto do qual participei foi organizado nas redes sociais, que se não servem para mudar o mundo, pelo menos ajudam a fazer as pessoas pensarem um pouco mais sobre o mundo e isso já pode ser um belo começo. Tratava-se de um ato de repudio a nomeação do Deputado Marco Feliciano a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Não aceito que uma pessoa manifestamente racista e homofóbica presida tal comissão. Para mim é mais uma amostra do poder legislativo sambando na cara da população. E dessa vez eles não vão sambar sem que eu proteste.

Então me desloquei em plena tarde de sábado para a Redenção. Ótimo lugar para o primeiro protesto, senti-me em casa. Sempre mais fácil revoltar-se em um ambiente seguro e familiar. Lá chegando, deparei-me com um grupo variado de pessoas, não eram muitos, mas eram engajados, comprometidos e dispostos a não aceitar aquele absurdo. Famílias, grupos representantes da causa GLBT, da causa negra, ateus, cristãos, brancos, negros, gays, heteros, todos ali defendendo o direito de ser diferente e lutando pela chance de ser igual perante a lei.

O palanque improvisado embaixo do Monumento Expedicionário era ocupado por pessoas diversas que falavam suas razões para estar ali. Juntaram-se outros movimentos que se opunham ao Renan Calheiros ser presidente do senado, ao Maggi ser presidente da Comissão do Meio Ambiente, causas diversas, mas com um ponto em comum: os políticos não sambarão mais em nossa cara. Pelo menos não sem resistência.

E ouvi todos os discursos, bati palmas, concordei com algumas falas, discordei de outras, abracei o lago e ajudei a cantar canções de protesto. Tudo como imaginava que aconteceria em um protesto pacífico, porém valente. Mas o que mais me chamou a atenção em toda aquela manifestação não veio do “palanque” ou da voz de um representante de alguma ONG ou movimento, veio de uma jovem mãe que por ali passava.

Acredito que ela não devia ser muito mais velha do que eu. Passeava pela redenção com sua filha e seu marido em trajes de passeio e pelo olhar curioso acredito que acabaram no protesto quase por acaso. Eu não pude ouvir toda a conversa, mas não pude deixar de prestar atenção quando percebi que ela explicava a sua jovem filha, que não devia ter mais do que 6 anos, o porque daquela aglomeração de gente carregando cartazes e gritando o tempo todo. E a conversa foi mais ou menos assim:

“- … e não tem problema homem namorar com homem. Cada um pode namorar com quem quiser. Só que agora tem um homem no poder que é contra negros, contra gays… e a gente tem que se unir para protestar e tirar ele de  lá.”

Fiquei pasma com a simplicidade e veracidade daquele relato. Todos os discursos, todas as lutas, todo o protesto resumido em uma única explicação. E aquilo me encheu de esperança. Não só por causa daqueles que ali lutavam, mas por saber que se muitas criança crescerem ouvindo um discurso como o daquela mãe, daqui 20 anos protestos como os de sábado não precisarão mais existir. Mas enquanto isso, pretendo continuar protestando.

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2 pensamentos sobre “PROTESTAR É PRECISO

  1. hrxm disse:

    Muito bom. Gostei da simplicidade do teu texto. Semana passada eu ia também para o meu primeiro protesto – aqui em Recife o MPPE tem aprontado umas boas com o Projeto Novo Recife. Infelizmente tive um outro assunto inadiável e ficou para próxima – mas não vai ficar assim.

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