NEM TÃO JOVENS ASSIM

 

Assisti ao filme sobre o Renato Russo ontem à noite e recomendo. Não sou grande conhecedora do artista, do poeta ou da banda. Gosto das músicas, admiro a inteligência, mas confesso que só conheço a parte mais “mainstream” mesmo. Nunca me aprofundei na carreira dos caras e não sabia como tudo tinha começado. E isso o filme explica bem.

É sempre bom ver um filme nacional tão bem feito. Dá uma sensação boa entrar no cinema e ouvir a própria língua sem ser através das dublagens forçadas. Dá orgulho ver uma produção bem feita, atores fantásticos, enredo bem construído e sala de cinema lotada. Chega a dar esperança na sétima arte do Brasil. Momento ufanista.

Orgulho foi um dos sentimentos que o filme me despertou. Não só pelo cinema nacional que, se ainda tem muito o que evoluir, já cresceu bastante, mas também por saber que o Brasil foi e é o berço de tantos artistas talentosos.

Renato Russo era um poeta. Mas mais do que isso, era um poeta inconformado com a situação do mundo e, principalmente do país em que viveu. Já ouvi criticas de que ele era só um burguesinho de classe média. Evidente que quem proferiu essas palavras era outro burguesinho de classe média, mas isso não vem ao caso. Disse isso como se ser um burguesinho de classe média desmerecesse a crítica de alguém.

Ouso discordar. Aliás, talvez seja justamente isso que o Brasil precise. Mais revolta dos “burgueses” contra os problemas sociais. E não só com aqueles que fazem parte da nossa burguesia, como a violência ou o congestionamento nas ruas, mas contra toda forma de agressão e desrespeito a vida, a dignidade, seja de um ou de todos. Talvez tenha sido essa uma das grandes lições do filme para mim: Renato Russo foi capaz de ver além do mundo em que vivia, de se perceber como parte do problema e, mais importante, como parte da solução. E através da música fez a sua parte. E senti orgulho disso.

Mas o filme também me despertou uma tristeza profunda. Tristeza por perceber que aquilo tudo ocorreu entre os anos 1976 e 1982 e que, apesar de hoje vivermos em uma democracia, pouca coisa mudou. Ou talvez tenha mudado, mas ao ouvir os versos das canções de Renato, não pude deixar de pensar que se elas tivessem sido escritas ontem fariam sentido. E isso me causou tristeza.

Fiquei triste porque as letras foram escritas antes mesmo de eu nascer e, hoje, com quase trinta anos, vivo em um país tão desigual, tão injusto e tão opressor.

Mais de trinta anos se passaram e eu vivo em um país tão conservador e careta, mas tão careta, que um filme sobre a vida de Renato Russo não mostra um beijo gay para não chocar seus telespectadores. Não sei que músicas seriam escritas por ele hoje se estivesse vido. Só sei que já não somos tão jovens e, ainda assim, nada mudou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s