MINHA CONFUSÃO SOBRE O PROTESTO

Faz dias que quero escrever e não consigo. Essa onda de protestos pelo Brasil causou-me certa estranheza. Estive nas ruas, publiquei frases no Facebook, li textos, “escrevi” textos imaginários e não consegui colocar uma só palavra no papel. Tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tão pouco que ainda pode ser dito.

Li textos que expressavam exatamente o que eu sinto e que eram parecidos com aqueles textos imaginários que vinha escrevendo, mas como textos imaginários não contam, decidi não mais escrevê-los para não ser acusada de plágio. E ainda hoje não sei o que dizer.

Aí pensei em escrever sobre outro tema qualquer. Mas não consegui. A vontade de falar sobre os protestos é maior do que minha incapacidade de expressar o que eu sinto sobre eles. Pelo menos eu espero que seja. E decidi escrever.

Minha revolta vem se construindo faz tempo e é o acumulo do que já vi e vivi. Já mudei de opinião algumas vezes e espero mudar algumas mais durante a vida. Com o aprendizado vem a dura constatação de que estávamos errados em muitas coisas. Minha revolta vem de mim e de quem eu sou. Não poderia ser diferente. Mas isso não deslegitima minha revolta. Pelo menos eu acho que não. Saber observar e indignar-se com o que acontece a seu lado é sim algo legitimo.

Como grande parte das pessoas que conheço, faço uso do transporte coletivo da cidade e me uni ao grito daqueles que pedem que o transporte seja de fato público e de boa qualidade. Só quem paga R$ 2,85 para andar em um busão lotado todos os dias sabe o quão degradante é o sistema de transporte do país. E saber que parte desse dinheiro vai para o bolso de empresários é ainda mais revoltante. Aí me uni ao grupo dos que pedem melhorias. Tudo o que eles pediam, eu já reclamava há tempos. E fui às ruas. Mas essa era a parte fácil. Uso ônibus, sei que é uma droga. Fui protestar!

Mas o que se viu foi algo muito maior do que isso. E aí eu fiquei confusa. Admito que me perdi em meio a tantas reivindicações, tantas causas dentro de uma causa só. Evidente que temos muitas e eu aqui, sentada em frente a meu computador posso pensar em pelo menos 10.  Isso não me chamou a atenção. O Brasil é um país com mais problemas do que a gente imagina. Isso eu sempre soube. O que me chamou a atenção foi ver pessoas que tinham discursos tão diferentes do meu unindo-se no esse protesto.

No começo estranhei. Questionei se a participação era mesmo válida, se não estava sendo usada como “fantoche”, se meu grito tinha alguma importância nessa gritaria toda. Pensei, pensei, pensei. Li, reli e conversei com pessoas. E não cheguei a conclusão nenhuma a não ser que este não é o momento de chegar a conclusão. É a hora dos questionamentos, da dúvida, dos porquês.

Comecei me questionando: porque eu luto? Cheguei à conclusão óbvia e abrangente de que o que mais me incomoda neste nosso país é a desigualdade. Talvez tenha sido por isso que decidi cursar Direito e talvez tenha sido por isso que tenha me desgostado do Direito quando comecei a trabalhar com parte dele. Descobri a minha luta. É pela desigualdade e toda a sua abrangência.

Continuo indo às ruas porque acho inaceitável que em um país como o Brasil pessoas morem nas ruas, em casas feitas de caixa de papelão ou em locais sem saneamento básico, infraestrutura ou o mínimo de condições de viver a vida dignamente. Vou porque não posso aceitar viver em um país em que o salário mínimo é R$ 678,00 e a cesta básica custe R$ 318,00 (sem falar no preço dos bens de consumo, aluguel, etc). Seguirei protestando por não aceitar que professores ganhem salários ridículos e que tenham condições de trabalho quase sub-humanas.

Não posso achar certo olhar para o lado e ver milhares de pessoas que não terão condições de seguir em frente, porque a elas não é – nem será – garantida a educação, a saúde e a segurança de que tanto se fala. Não consigo me conformar com o fato de que grande parte da população ainda acha que o que vai resolver o problema da segurança é colocar um monte de gente na cadeia, sem se preocupar com as condições da prisão, sem pensar na possibilidade da ressocialização e sem pensar na causa disso tudo.

Gritarei porque acho um absurdo o quanto nos roubam. Nos roubam nos impostos, nos roubam nas licitações fraudulentas, nos roubam com CCs inúteis, salários exorbitantes e gastos excessivos. Roubam nosso dinheiro e roubam nossa dignidade. Nos roubam quando não permitem que grande parte dos brasileiros tenha acesso à cultura e ao lazer. Nos roubam quando a gente já não se entristece quando vê uma criança passando fome, quando acha natural que tantos menores de idade estejam cometendo crimes, quando não se indigna frente a fome, a sede e a miséria. Nos roubam quando nos fazem viver entre grades de condomínios para que possamos nos sentir protegidos e nos roubam quando nos fazem perder a capacidade de olhar para fora das grades e ver todas aquelas pessoas lá fora que não vão conseguir pagar pela educação, pela saúde e pela segurança como nós e que viverão uma vida inteira assim.

E seguirei indo nos protestos, porque se aqui jogam bala de borracha, na Maré, em Belo Monte e em tantos outros locais, não foram tão “cuidadosos”. Seguirei porque ainda tem gente que pensa que pode curar alguém que ama uma pessoa do mesmo sexo. Porque vejo frases como “Direitos Humanos para Humanos Direitos.” Porque não sei quem decidirá amanhã ou depois que eu já não sou mais direita e, por essa razão, não mereço mais ter direitos. Ah, a lista é gigante e não caberia em um só texto. Nem em dois.

Essa é minha luta hoje. Desconexa, vasta, abrangente demais, muitas causas dentro de uma causa só. Mas acho que o protesto reflete um pouco de cada um. Só resta esperar que o resultado de tantos reflexos diferentes seja de fato um país melhor para todos e não para os mesmos de sempre.

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