JALECOS E A POLÊMICA

Médicos não curam preconceitos. Médicos não curam a pobreza, a desigualdade social, anos de carência e descaso para com uma parcela gigante da população brasileira. Médicos não curam a falta de estrutura de hospitais e de postos de saúde ou a desvalorização de profissionais ligados a esta área.  Médicos não curarão nada disso. Pelo menos não sozinhos.

Mas médicos curam outras coisas. Médicos estudam para curar enfermidades, para amenizar a dor dos que sentem dor, para prevenir os males de quem ainda não sente nada e para atender aqueles que precisam de sua ajuda. Porém não são seres mágicos, são somente humanos.  Tão humanos quanto qualquer um de nós.

Médicos não são melhores nem piores que eu e você, eles apenas escolheram uma profissão diferente da nossa. Muitos serão dinheiristas, gananciosos e estarão ali somente por status, prestigio e porque acreditam que ser médico ainda lhes dá uma posição social superior na sociedade de castas brasileira. Gostam de serem chamados de doutores, de andar de jaleco branco e de se sentirem maior do que os demais por causa disso. Claro, isso não é privilegio da classe médica, encontramos gente assim também em outras faculdades por aí. Em pleno século XXI profissões de prestigio ainda trazem respeito, não interesse quem esteja por trás do diploma.

 Porém muitos, mas muitos mesmo, começam a faculdade por vocação e não por acreditar que somente os mais inteligentes cursam medicina. Muitos acreditam naquilo que fazem, no juramento que dizem, muitos tem ali uma enorme vontade de salvar o mundo, nem que seja uma vida de cada vez.

E antes de julgar não se esqueça de que, apesar do que pensam alguns, médicos são humanos e, bem, humanos são assim, de todos os jeitos. Então alguns destes irão mudar seu pensamento, irão acostumar-se com a vida bem vivida, irão achar que 20 mil reais não é muito dinheiro, irão agendar pacientes em consultas de 15 em  15 minutos, irão dar diagnósticos sem precisão, solicitar milhões de exames e, algumas vezes, sem nem saber o nome de seu paciente. Existem médicos assim. Da mesma forma que existem advogados, juízes, professores, publicitários, empresários, empregadas domésticas, jornalistas e etc. que se portam da mesma maneira em suas profissões. Somos todos humanos.

Mas toda moeda tem dois lado e há sim médicos competentes, humanos, preocupados e conscientes do papel importantíssimo que desempenham na nossa sociedade. E não se engane, muitos destes profissionais ganharam e ganham muito, mas muito dinheiro exercendo medicina de maneira humana,  com excelência, capacidade e acreditando no que fazem. Outros escolheram submeter-se a situações de trabalho terríveis, se veem todos os dias impossibilitados de exercer sua profissão com maestria devido a falta de equipamento, de pessoal, de estrutura. E voltam, e lutam, e salvam vidas. Confortam pessoas. Trazem um pouco de esperança para quem se encontra em situação já tão fragilizada, afinal, a doença fragiliza tantos ricos quanto pobres.  Claro que a mesma forma existem advogados, juízes, professores, publicitários, empresários, empregadas domésticas, jornalistas e etc. que se portam da mesma maneira em suas profissões. Somos todos humanos.

É essa humanidade que me faz estranhar o comportamento de alguns médicos  que vaiaram os participante do novo programa federal. Mas é por saber que existem humanos de todos os jeitos, que essas vaias não me surpreenderam tanto quanto deveriam. O problema da saúde do Brasil é muito maior que a falta de médicos. Passa por questões de investimento, qualificação de profissionais, infraestrutura adequada, valorização das demais categorias da área da saúde, enfim,  diminuir um pouco a injustiça social e os vãos que separam hospitais como os sírios-libaneses e os postos de saúde Brasil afora. Todo mundo sabe disso, todo mundo deve brigar por tudo isso, hoje e sempre. E briguemos todos, inclusive os médicos.

Mas aí paro para pensar naquela pobre criatura que hoje precisa de atendimento em algum lugar desse país. Ela não vai conseguir esperar pelo investimento, pelas mudanças, pela remuneração correta ou pela licitação para compra de aparelhos. Ela não vai conseguir aguardar. Ela só quer um remédio para acabar com sua dor. E a dor ela sente hoje. Aí eu penso que um destes médicos poderá atendê-la. Que por hoje ela não se sentirá mais uma vez abandonada por um Estado que nunca lhe deu condições mínimas de dignidade e sobrevivência. Talvez seja um paliativo, talvez demagogia e certamente o problema a longo prazo não será resolvido, mas por hoje sua dor não será mais sentida. E nesse momento eu acredito que vale a pena.

Vinda de médicos sem melhorias de condições, sem qualificação dos profissionais, sem investimento e sem trabalho pesado vai resolver o problema do Brasil? Claro que não! Que siga a luta por tudo isso. Mas talvez cure a dor, talvez traga esperança, talvez conforte alguém que há muito não tem conforto. E gosto de pensar que é nesta questão que os médicos são um pouco mais humanos do que nós: na vontade de acabar com a dor, de trazer conforto. E não pela capacidade de trabalhar 30 horas em um único plantão, o que para mim é sim trabalho desumano, mas acho que por isso ninguém está brigando agora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s