HISTÓRIA DA CAROCHINHA

historia da carochinhaEra uma vez uma girafa muita alta que morava em um zoológico qualquer de uma cidade qualquer do Planeta Terra. Seu nome era Garrafa. A girafa Garrafa morava no seu reservado e convivia com outras girafas bem divertidas. Algumas eram parecidas com ela e outras um pouco diferente, mas todas tinham em comum o fato de serem girafas. Só que a girafa Garrafa, ao contrário de suas amigas, nunca se contentou com aquele espaço que haviam reservado para ela. Não entendia porque era obrigada a ficar confinada ali quando sabia que havia muito mais a ser visto fora do cercado.

Tentou explicar essa inquietação para seus amigos girafas, mas eles não pareciam entender. Diziam que seu espaço era mais seguro, mais bonito. Que ali todos eram como a girafa Garrafa e que, ainda que pensassem diferente em algumas coisas, todos conseguiam compreende-la, afinal, todos pensavam como girafas. Não deveria sair. A vida era dura fora do reservado.

Mas a girafa Garrafa achava tudo aquilo muito estranho. Sabia que nunca seria uma tartaruga, mas acreditava que se se esforçasse um pouquinho, que se encontrasse uma tartaruga e conversasse com ela, seria capaz de entender como a tartaruga se sente. Ou pelo menos tentar entender. Mas para isso precisava ver a tartaruga e isso nunca aconteceria se não saísse de seu cercadinho.

Então em uma noite escura do mês de agosto resolveu sair de sua prisão. A fuga foi fácil. Há anos que os cuidadores haviam tirado os muros do espaço das girafas, pois sabiam que elas evitavam sair dali, mesmo sem cercas para impedi-las. Mas não a girafa Garrafa. E ela saiu.

Todas as noites andava pelas ruas vazias do zoológico e encontrava animais diferentes. Conversava com todos. Alguns paravam para vê-la, alguns tentavam atacá-la e outros simplesmente a ignoravam. Mas a maioria era gentil e só queria contar sua história e dividir suas ideias, assim como a girafa Garrafa. E ela fez muitos conhecidos e alguns bons amigos.

Em uma destas noites de primavera, daquelas que acontecem bem no meio do inverno, a girafa Garrafa conheceu uma pequena zebra que se apresentou como zebra Zenildo. Até que Zenildo não era tão pequeno, mas perto de Garrafa parecia mais baixinho que o normal. Conversavam sobre assuntos diversos e a cada dia a conversa ficava mais longa. Tinham muitas coisas em comum e muitas outras que não combinavam em nada. Mas a amizade foi crescendo noite a noite.

Durante o dia, Garrafa continuava em seu cercado e evitava falar sobre seu novo amigo. Mas pensava em como ele era bom, sereno e a compreendia como ninguém. Zenildo tinha uma paz que parecia contrastar com a ansiedade inquietante de Garrafa. Seu coração era gigante e aquela bondade toda fazia o pequeno Zenildo ficar mais alto que Garrafa. O olhar tranquilo, o riso solto, a compreensão e a vontade de viver de Zenildo eram o que Garrafa mais gostava nele. E Garrafa já não conseguia parar de pensar naquela zebra tão quietinha e amável, mas que a compreendia tão bem. Foi então que percebeu: estava se apaixonando.

E eles eram muito diferentes. Tinham sido criados em espaços diferentes e viam a vida cada um a sua maneira. E a vida vista sob os olhos de Zenildo era tão bonita. Como era bom dividir aquele olhar. Garrafa, cansada de ter que sair a noite para encontrar Zenildo, decidiu contar para suas amigas girafas que tinha um novo amor.

Mas ninguém gostou da ideia. “Isso não é natural, Garrafa”, diziam os mais velhos. “O que vão pensar nossos vizinhos Gorilas quando você chegar com uma zebra, Garrafa?!”.  “Não podemos aceitar, Garrafa!” E isso deixou nossa amiga girafa muito triste.

Mas como sempre foi muito inquieta e não costumava simplesmente aceitar o que lhe diziam, Garrafa não conseguiu entender porque não podia gostar de quem queria e porque Girafas e Zebras não podiam namorar. Afinal, Zenildo era sensacional e eles se davam muito bem. Muito melhor do que alguns casais de girafas que ela conhecia. E Garrafa insistiu. Não seriam os comentários maldosos, os olhares curiosos ou a crítica descarada que iriam impedi-la de seguir seu coração. Podia ser apenas uma girafa, mas se precisasse ser ela quem fizesse o primeiro movimento para romper com aquela divisão que não conseguia compreender, então ela faria. Não deixaria de gostar de Zenildo só porque ele era uma zebra. Aliás, se ela gostava tanto de Zenildo era inclusive por ser ele uma zebra.

E a girafa Garrafa, que nunca aceitou viver em seu reservado, que se arriscou a ver o mundo fora de habitat, decidiu que o amor de Zenildo a fazia muito, muito, muito feliz e que não há nada mais natural nesse mundo do que amor que faz bem.

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2 pensamentos sobre “HISTÓRIA DA CAROCHINHA

  1. Maria Elizabeth de Leon Carriconde disse:

    Gostei muito de Historia da Carochina. Parabena Helena, escreves de forma simples e delicada, o q hoje e dificil pois todos acham q quanto mais enrolado e cheio de palavras inuteis melhores ficasm os textos…

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