(re)Começar mais uma vez

Lá vamos nós de novo. Hoje assinei minha rescisão na escola de inglês em que dava aula. Mais uma vez, tive que pedir demissão para ir atrás de algo que acredito ser melhor para mim, algo que faz mais sentido nesse momento de minha vida, algo que é importante, que há anos almejo e finalmente consegui. Então não tive escolha, tive que deixar para trás um local pelo qual tenho enorme carinho, colegas pelos quais em pouco tempo adquiri não só grande admiração profissional, mas também uma grande amizade e deixo para trás uma das profissões que tanto gosto: ser a teacher do inglês.  Quer dizer, tive escolha e escolhi abrir mão de tudo isso para buscar o que quero.

Me pego levemente nostálgica. Penso neste semestre, em todos os alunos e no tanto que aprendi. Lembro-me de minha chefe que me aceitou de volta de braços abertos e que me ensinou tanta coisa de novo. E penso em tudo que adquiri nestes seis meses. Sim, porque já havia estado lá antes e já havia saído de lá também. Mas estão certos aqueles que dizem que a gente nunca volta para o mesmo lugar, que não se percorre a mesma estrada duas vezes: a escola para a qual voltei era muito diferente da que eu antes estivera e eu, bom, eu estava igualmente diferente.

Mais uma despedida. Por curiosidade resolvi olhar meu currículo e contabilizei 12 pedidos para sair do emprego em exatos 10 anos de vida profissional. Entram nesta conta maluca dois órgãos públicos nos quais fiz estágio, quatro escritórios de advocacia nos quais fui advogada, três escolas de inglês nas quais fui professora,  uma agência de empregos em Londres para a qual trabalhava de garçonete e uma empresa inglesa na qual trabalhei como Hospitality Assistant – que nada mais é do que um nome chique e em inglês para a moça do cafezinho/garçonete de eventos/copeira em um dos maiores escritórios de advocacia da terra da rainha. Dos meus 19 aos 29 anos já fiz tudo isso.

12 empregos depois e com um currículo esquizofrênico debaixo do braço  e aqui estou eu, pronta para recomeçar a vida acadêmica encarando um mestrado em antropologia social.  Qualquer especialista em RH ficaria receoso em me contratar. Eu mesma já acreditei que essa minha esquizofrenia profissional tivesse a ver com o fato de eu não me decidir, de querer sempre uma coisa diferente, de não ter ideia do que eu queria da vida. E que isso era uma coisa negativa e que deveria ser solucionada. Mas não é. Eu sei o que eu quero ser da vida agora e sabia todas as vezes que comecei – e terminei- um emprego. É verdade que o que eu quero muda com alguma frequência, mas ainda bem que tenho a oportunidade de tentar sempre.

Lembro-me como se fosse hoje de quando, em um banco na frente de minha casa em Londres, a gerente me disse para que eu não esquecesse que eu “estava trabalhando como hospitality assistant, mas que eu era uma advogada!”. Disse isso como se a primeira opção fosse infinitamente inferior a segunda. Que me desculpe aquela jovem gerente de longos cabelos negros e lindos olhos castanhos, mas eu sou sim aquela hospitality assistant. Ainda sei servir café, servir coquetéis, preparar salas de reuniões e mesas para jantares VIPs, tudo com muita graça e profissionalismo. E sou também advogada. E professora de Inglês. E agora mestranda em antropologia social. Tudo com muita graça, competência e profissionalismo.

Eu sou tudo isso e sempre serei todas estas coisas. São parte de mim. Nunca tive medo de mudar de emprego, mudar de sonho, buscar algo diferente, que me desse mais prazer, mais vontade, que fizesse mais sentido para mim. Acredito que tenha achado o caminho agora, mas se não for, a gente muda de novo. Foi minha coragem de mudar que me trouxe até aqui. E foi ela que me ensinou que a gente pode ser tudo o que quiser, basta ser sempre o que se é.

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4 pensamentos sobre “(re)Começar mais uma vez

  1. Olá, Helena! Quanta coragem! Ter um currículo desses não é pra qualquer um. A maioria das pessoas, principalmente da nossa faixa etária -fim dos 20 – acha que não pode mais arriscar. Que tem eu seguir aquilo que estudou e ponto final. Sei que esse pensamento era mais forte na época dos nossos pais, mas algo ainda ficou enraizado. Não sou tão corajosa quanto você – gosto de segurança e sido de ansiedade. Mas graças a Deus até hoje tive pessoas ao meu lado que deram o empurrãozinho necessário para eu buscar o caminho que me deixaria mais realizada. Da próxima vez que eu pensar em mudar e bater o medo, vou lembrar do seu texto. Nós somos os únicos responsáveis por nossa própria felicidade. Boa sorte na sua nova fase!

  2. Parabéns por ser tão corajosa, correr atrás dos seus sonhos sem limite sem medo.
    São poucas pessoas que conheço que sabem ser feliz a Vida é feita de escolhas. Sucesso nesta nova empreitada.
    Beijos

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