CONVERSA DE BAR

Eu adoro botecos. Sempre gostei de me reunir com meus amigos em volta de uma mesa de bar, pedir alguns drinks, petiscos clássicos e arranjar milhões de maneiras de salvar o mundo em uma só noite. Algumas das minhas melhores conversas aconteceram em volta de uma mesa de bar e poucas vezes soube mais sobre aqueles de quem eu gosto do quando em uma destas ocasiões. A mesa de bar vira palanque para propostas de governo, vira bancada para que cada um apresente suas melhores noticias do dia e vira confessionário para que cada um possa confessar todos os seus feitos sem que nada seja considerado pecado. A mesa de bar sempre foi um dos meus lugares preferidos.

E hoje me vi em uma situação inusitada. Sentei sozinha em uma mesa de um concorrido bar porto alegrense por quase 40 minutos. A principio não sabia o que fazer. Sentei ali como se todos estivessem me observando, como se me olhassem e perguntassem: “ o que faz essa pessoa sozinha em um bar? Coitada dela”.  De pronto precisei pegar meu celular. Afinal de contas, a grande sacada é não parecer estar sozinha, é não parecer vulnerável, frágil ou inquieta. É preciso parecer sempre ocupada, sempre estar esperando alguém, estar sempre fazendo algo importante. A solidão, a calma e o ócio se tornaram defeitos insuperáveis e dignos de pena. É preciso estar sempre ocupada para não despertar a piedade ou o desprezo alheio e, durante um tempo, ocupei-me com o meu celular. A falsa companhia virtual nos acompanha, mas não nos completa.

Então decidi pedir um drink e colocar meu celular na bolsa. Durante alguns minutos sentei ali, somente eu e mais ninguém.  Não havia ninguém para salvar o mundo comigo, ninguém para dividir meus pecados, ninguém para contar as peripécias da ultima semana. Só eu. Então não tive escolha: fui obrigada a me ouvir. Fui obrigada a dividir um drink comigo mesma, a perguntar como eu salvaria o mundo, a me contar todas minhas noticias e a confessar todos os meus pecados. Fui minha confidente e companheira. Durante 30 minutos dividi uma cerveja comigo mesma e me perguntei como eu estava. O que eu queria, para onde estava indo e se estava tudo bem comigo. Quis saber como foi o meu dia e quais eram meus planos para os próximos meses.

Percebi as conversas ao meu redor, o barulho de pessoas que dividiam confidencias, verdades e mentiras, papos sérios e casuais. Percebi todo murmurinho, os casais tímidos que chegavam, os amigos que se sentavam ali para colocar o papo em dia e os velhos namorados que ainda tinham tanto para dizer um para o outro. Todos conversavam e eu ali, sem conversa, sem assunto, tão distante e tão perto de tudo aquilo. Tive uma longa conversa comigo mesa e isso me fez muito bem.

Sugiro que todo mundo vá consigo mesmo para um bar de vez em quando. É impressionante o quanto a gente esquece de se ouvir e como  as vezes a gente precisa sair de casa para descobrir o quão interessante pode ser a nossa própria companhia. Hoje conversei comigo mesmo durante 30 minutos e descobri que ainda tenho muito a dizer para mim mesma. Então chegaram minhas amigas e salvamos o mundo mais umas três vezes nesta conversa de bar.

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Um pensamento sobre “CONVERSA DE BAR

  1. Como dizia Vinicius de Morais!!!

    Por que será
    Que a vida insiste em se mostrar
    Mais distraída dentro de um bar

    Por que será?
    Eu, quantas vezes
    Me sento à mesa de algum lugar
    Falando coisas só por falar
    Adiando a hora de te encontrar

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