Se te cheira a M… – Pequena crônica sobre os meus sábados no Divã

No final deste verão me dei alta da terapia, ou melhor, parei de ir depois do período de férias de minha terapeuta, o que, por si só, me faz pensar que eu ainda não esteja pronta para uma alta. Mas de qualquer sorte, por essas intempéries da vida, por uma combinação de falta de tempo com falta de dinheiro e por estar com uma mente um pouco mais em paz consigo mesma, acabei não voltando em março.

Sinto falta das manhãs de sábado sentadas na poltrona vermelha e observando a paisagem de Porto Alegre vista do alto. E é claro que, como boa leonina, sinto falta de ter uma hora por semana, toda semana, para falar somente sobre mim mesma: sem censura, sem cortes, sem pudores, sem temer parecer demasiada egocêntrica ou convencida. Gosto de falar de mim, principalmente para quem tem interesse em ouvir.

Acredito que não tenha sido um método ortodoxo de tratamento psicológico. Talvez aqueles que esperam tudo feito conforme os livros e as teorias se chocassem um pouco com aquelas sessões que, para mim, mais pareciam uma conversa de bar entre amigas. Desde o primeiro dia, da primeira hora, me senti confortável naquele ambiente, me senti a vontade com aquela presença e me senti confortada por aquela conversa. Conforto vem também através da ruptura.

Abandonei a terapia depois de mais de dois anos e nem de longe me pareço com aquela garota que , em frangalhos, entrou naquela sala em uma fria tarde de junho. Ou será que me pareço?  Aprendi tanto sobre mim em dois anos, que mais pareceram uma vida inteira, mas ainda me pergunto o quanto de mim ainda é aquele outro eu. Perguntas  para a próxima rodada de manhãs de sábado.

E foram dolorosas as manhãs de sábado em que tanto falei e em que tanto ouvi. Dolorosas e recompensadoras. Ficou muito daquelas sessões, talvez mais do que eu possa me dar conta agora. Só que dia desses repeti em uma destas conversas em que se dá e se pede conselho, uma  das tantas frases escutadas durante estes dois anos e que me soou, desde a primeira vez que a ouvi, sábia demais para ser ignorada: “se te cheira a merda, não são flores”.

Sim, esta foi uma das tantas frases que me foram ditas naquelas manhãs e uma das tantas que, apesar de óbvias, de simples, de claras, me fizeram repensar algumas coisas sobre mim. Seguir os instintos não quer dizer fechar a mente, rechaçar de cara ou criar uma barreira intransponível entre você e o outro. Não era disso que falávamos e não é a isso que me refiro toda vez que penso nesta expressão.

Ela me remete sim às tantas vezes que senti cheiro de merda e segui em frente buscando as flores que projetei naquela pessoa ou naquele projeto. Nas tantas vezes que ignorei o que sentia, o que sabia, aquela parte de mim que gritava para sair dali, e segui em frente buscando o inatingível: a parte daquele alguém ou projeto que nunca existiu a não ser em minha imaginação.

Abandonei a terapia, mas ela não me abandona. Vez ou outra me pego pensando no que diria minha terapeuta frente a um novo problema ou situação que me aflige e gosto de pensar que, pelo menos em algumas coisas, eu estou certa sobre o que ela diria. Qualquer dia desses eu volto para minhas manhãs de  sábado com conversa, café e ouvidos. E até lá vou ouvindo aquela voz dentro de mim que espera ter compreendido pelo menos um pouquinho daquilo que a gente conversou durante dois anos.

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