Sutilezas do Outono

autumn-leavesHá muito corria. Há tempos andava depressa, sem olhar para o lado, sem distrair-se, focada naquilo que realmente importava. Tão concentrada em seu caminho que sequer percebeu que todas as folhas da rua onde morava já haviam mudado de cor. E naquela manhã de outono, de céu azul e vento manso, ao parar por apenas um segundo, ao distrair-se por um breve instante em meio a seus tantos pensamentos tão mais importantes que aquela rua, pode olhar para o alto e ver o lindo laranja das folhas. Surpreendeu-se ao perceber que todas as árvores a seu redor já estavam prontas para a nova estação e ela sequer havia notado a mudança. Era como se o verão tivesse acabado de repente, de supetão, sem que aviso. Voltou seu olhar para o chão, para a pequena calçada em meio ao gramado e se deu conta de que a grama ainda estava verde. Aquele verde vivo que mostrava que não fazia muito que o verão havia ido embora.  Ao perceber o contraste das árvores avermelhadas com o verde da grama,  resolveu parar.

 Parou como a muito não parava e perguntou-se desde quando as folhas de outono já não  lhe tirava mais o folego. Podia lembrar como se fosse ontem da primeira vez que presenciou aquela mudança, que percebeu que as árvores tão verdes durante os meses quentes do ano, agora se coravam para esperar o frio. Nem sabia que era possível ver tantos tons de laranja e vermelho. Muito menos que, ao se misturarem, aqueles tantos tons tornavam as montanhas que cercavam a sua nova morada um pouco mágicas, um pouco mais quentes, um pouco mais acolhedoras. Lembrou-se de quando, maravilhada, andava pelas ruas tentando perceber todas as nuances, todos os tipos de folhas, de cores, de árvores. Prestava atenção nos vestígios de que o outono estava chegando e também de que ele estava indo embora. Cada dia era diferente do dia anterior, não porque de fato o fossem, mas porque era isso que buscava ao sair de casa pela manhã. E por essa simples razão, eles pareciam ser.

Foi assim que havia mudado não só o seu modo de olhar para as árvores, de perceber sua nova rua, mas também havia aprendido a gostar mais ainda das estações. Gostava de transições, de transformações em curso, de mudanças de cor. Talvez nunca tivesse notado o quanto a transitoriedade lhe era cara. O que antes encarava como fuga, como falta de coragem, como o mais puro medo de seguir adiante, agora via como um modo diferente de encarar o mundo. Ao perceber a mudança das cores, pensou que talvez fosse também um pouco como elas, que se faziam um pouco mais coloridas para preparar-se para todo o frio que vinha pela frente. Porque ao mudar, nem mesmo o frio que sucedia toda aquela transformação podia ser ruim ou temível. Ele passa a ser somente mais uma fase de toda aquela variação.  Talvez fossem as pausas para transformar-se que fizessem tudo valer a pena.

Só que naquele ano não houve pausa, não houve contemplação de folhas, não houve encantamento.  Sentou-se um pouco incrédula. Iria perder o ônibus, mas o horário do próximo compromisso era menos importante do que aquele momento. O momento em que se percebe que a renovação das árvores lhe passou despercebida porque estava ocupada demais com as coisas importantes.  Sequer sabia se haviam mudado sua cor há uma semana ou no mês passado. Será que haviam mudado faz muito? Queria chegar a uma conclusão, mas não sabia fundamenta-la. E desde cedo havia aprendido que conclusões não fundamentadas de nada servem. Era por isso que andava apressada, buscando fundamentações, argumentos, embasamentos, conclusões e respostas. Aprendendo a fazer as perguntas certas. Buscando o melhor modo de seguir em frente, de chegar na frente, de não parar. E para isso parecia que o único modo era correr, melhor correr do que ficar parada. Será?

Levantou-se e seguiu andando, mas dessa vez resolveu andar tranquilamente. Não queria ser o tipo de pessoa que deixa de se encantar com as folhas que trocam de cores. Ainda que todo ano elas mudem, ainda que a cada outono se renovem, não queria que isso lhe passasse despercebido. Era justamente por isso que se mudara para aquela rua: para perceber melhor as pequenas transições, para apreciar e talvez compreender essas tantas renovações. Era sua inquietude que lhe havia trazido até aquela cidade, seu desconforto com as obviedades, com as folhas que não mudam de cor, lhe fizeram cair, meio que por acaso, meio que de caso pensado, justamente naquela rua em que as folhas mudam de cor. Resolveu então andar devagar, pois a pressa, se não impede a transição, a torna menos bela, menos agradável. Mais triste do que estar onde as folhas não mudam de cor, pensou para si, é não perceber a mudança.

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