(Quase) 31 anos vivendo como um pato

duckSemana passada li em uma rede social uma frase boba, mas que parecia ter sido escrita pra mim: “minha vida tem um elenco fantástico, eu só não consegui decidir o roteiro ainda.” Amanhã quando acordar terei trinta e um anos. Dia após dia vivi cada um destes anos que hoje, somados, compõem minha existência. 31 anos. Provavelmente, como acontece a cada ano, não me sentirei nem um pouco diferente ao acordar e, durante os próximos meses e dias, quando perguntarem minha idade seguirei afirmando ter 30, até me dar conta de que mais um ano se passou. 31 anos. Já cresci e nem me dei conta. Isso que da ir vivendo um dia de cada vez, tal como manda o ditado. Não sei se estou exatamente aonde deveria ou queria estar, só sei que estou onde estou. Se pensarmos em termos práticos, ao 31 anos, talvez não devesse ser ainda estudante, estar morando com os pais e vivendo com uma bolsa que, se não é ruim, também não é lá essas coisas. Mas, na verdade, ninguém deve nada a ninguém.

Foi até aqui que todas as escolhas que fiz (e as que não fiz também) durante cada um dos dias destes 31 anos me trouxeram. E devo admitir que ando bastante feliz com elas. Não posso dizer que me privei de muita coisa durante esse tempo, que lutei grandes batalhas ou que tive uma vida de dificuldades. Muito antes pelo contrário. Até aqui, as coisas têm acontecido sem muitos percalços. Inúmeras mudanças de profissão, mudanças de cidade, de estado, de país, de amores, de amigos e de gostos. Já fui tantas em 31 anos de vida que não saberia muito bem descrever quem eu sou. Nem todas minhas preocupações, ansiedades e medos conseguiram me fazer seguir um caminho linear durante esses 31 anos. Expectativas frustradas, estradas percorridas, erros, acertos, mudanças e permanências. E assim fui seguindo.

Lembro que aos 17 anos tive que preencher uma ficha para que alguma família, que me aceitaria em sua casa durante um ano para um programa de intercâmbio, me escolhesse. Aconselharam-me a colocar como uma das minhas características pessoais ser uma pessoa “easygoing”. Não sabia bem o que aquilo queria dizer, mas achei bacana e coloquei. Acabei comprando o discurso e, apesar de ser uma das pessoas menos easygoing que eu conheço, acabei levando uma vida que, até então, parece ter sido bastante condizente com minha ficha de inscrição. Talvez seja a tal máscara do qual tanto falam. Talvez de tanto tentar “enganar o rei”, eu tenha, de certa forma, conseguido enganar a mim mesma e vou levando as coisas conforme elas vão acontecendo, ainda que, muitas vezes, ansiosamente, desesperadamente e ressentindo os caminhos não escolhidos.

Muita coisa aconteceu nesses 31 anos. Têm sido legal, na maior parte. Mesmo em momentos como os de hoje, sentada a frente do computador, pensando no lugar em que me encontro e refletindo sobre os tantos caminhos possíveis. Quando, ainda de pijama apesar de ser o meio da tarde, trabalho em um projeto que, até dois anos atrás nem sabia que poderia existir e que hoje, dois anos depois, pode ser um dos obstáculos entre o meu agora e a escolha que determinará os próximos 4 anos da minha vida. Mesmo quando olho para as palavras escritas e indago se não seriam elas também uma enganação ao rei e a mim mesma, ainda assim, está sendo bacana. Porque a vida e o universo têm sido generosos no quesito reviravoltas e isso, ainda que nem sempre fácil, pode ser bastante desafiador.

Amanhã farei 31 anos. Talvez nada mude nessas 24 horas. Talvez tudo mude. Mas é bastante provável que meus primeiros dias com 31 anos sejam iguais aos últimos com 30: angustiada com os prazos que se acumulam, nervosa com o as decisões e escolhas que parecem ficar cada vez mais permanentes a medida que passam os anos,  e certa de que gostar do lugar em que me encontro não significa que conseguirei ficar aqui por mais tempo. Enquanto isso, vou seguindo, ano após ano, a famosa teoria do pato: “na vida, seja como um pato: calmo e sereno na superfície, mas sempre pedalando embaixo d’água.”

Pensando bem, todos os anos são um pouco assim. Não saberia medir como foram os 31 anos de minha vida. Talvez não se possa medir anos com precisão. Mas foram bacanas, têm sido legais. Principalmente em função do elenco. O roteiro ainda estou tentando desvendar, dia após dia, ano após ano. E segue o baile.

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