Sobre Fracassos

Dois meses atrás recebi uma notícia que me deixou arrasada. Um e-mail muito educado, bastante simpático, que começou dizendo o quão concorrida a seleção daquele ano havia sido. Nada bom poderia seguir aquela primeira frase. E não seguiu. Ele terminou com algo como “valeu a tentativa, mas não foi dessa vez”. Certamente mais formal, mas igualmente duro de se ler. Ainda mais quando se quis tanto. E como eu quis. Ou acho que queria. De qualquer modo, me dediquei. Coloquei o melhor de mim nesse projeto. Dediquei meu tempo, minha energia e minha nada pequena dose de ansiedade naquilo. E pra quê? Pra no final receber uma mensagem de não aceite padrão? Fracasso. A única palavra que me vinha na cabeça. Repetidamente. Fracassei.

Como boa leonina que sou, fiz desse episódio um drama. Desses bem espalhafatosos. Questionei minhas escolhas. Os caminhos que haviam me levado até aquele e-mail. Meu ego foi duramente ferido. Caíra. E feio. A terça–feira que começara cheia de planos e expectativas, se tornou um dia de muito, mas muito drama e questionamentos pessoais. Auto piedade. Vontade de largar tudo. Mudar mais uma vez. Começar de novo. Reação primeira que hoje em dia já não me surpreende: vontade de voltar para o início frente ao primeiro desgosto. Novo caminho. Novas escolhas. Se reinventar.  Tomar a dificuldade como uma daquelas alavancas colocadas nos trilhos para que o trem faça a curva. Fazer a curva.

Mas resolvi dormir. No meio da tarde. Dar um tempo do mundo, de mim, daquele drama todo que já me é tão familiar e, ainda assim, quase incontrolável. Pausar. Ainda que por algumas horas. Ainda que não completamente distante de mim. Acordei duas horas depois com uma estranha sensação de alívio. Mais calma, lembrei que aquele projeto tinha sido traçado a muitas mãos. Muitas mesmo. Pessoas que me ajudaram, torceram, se envolveram diretamente naquilo que era, de certa forma, tão meu.  Assim, o que era para ser meu, se tornou de muitos. Muitos afetos em um só projeto. Como pode ter sido um fracasso?

No dia seguinte, como em uma daquelas pegadinhas do universo, abri as “lembranças do facebook”. Havia uma enxurrada de mensagens de quatro anos atrás: seis de dezembro de 2013. Eram pessoas me parabenizando por ter passado na seleção de mestrado. A maioria, tenho certeza, não entendia muito bem o porquê daquela mudança um tanto quanto brusca de caminho. Muitos, talvez, sequer soubessem ao certo o que eu estaria fazendo pelos próximos dois anos. E se é pra falar bem da verdade, eu tampouco fazia ideia do que viria pela frente. Mas veio. Tanta coisa. Os dois anos se multiplicaram e hoje são quatro. Quatro anos desde aqueles primeiros parabéns  e quanta coisa aconteceu. A lembrança automática da rede social, que normalmente ignoro ou leio rapidamente por alguns segundos logo depois de acordar, me fez parar e pensar sobre a experiência do dia anterior:  meu fracasso, que, ainda que não o primeiro e tampouco grande ou notório, foi o que mais me abalou desde que comecei essa  jornada.

Se é verdade que pouco escrevi livremente desde que comecei nessa tal academia, é igualmente verdade que muito, mas muito vivi e senti desde então. Pensei na já conhecida frase escrita em um muro que diz que “a vida não cabe no lattes”. Lembrei que esse fracasso, como todos os outros, não vai para lá.  Ele pode passar despercebido. Basta ficar bem quietinha e não fazer muito alarde. Mas se tem algo que não sei fazer é pouco alarde. E cá estamos: escrevendo novamente depois de não sei quanto tempo, para falar justamente daquilo que não vai para o lattes, mas que tem tanto de vida dentro de si ( mesmo porque eu só aprendi o que é esse tal “lattes” há pouco mais de quatro anos quando tive que participar da seleção de mestrado. Até então, ele era um ilustre desconhecido).

Meu fracasso, é verdade, foi bastante acadêmico,  mas ele teve dentro de si muita vida. Tanto afeto. Tanta energia investida, tanta rede, tanta ajuda, tanta troca. Tantas mensagens nervosas trocadas ao longo de dias. Tantos encontros. Tanta coisa para além da burocracia, das páginas estrategicamente escritas e da entrevista nervosamente realizada por intermináveis dez minutos. Experiências que não caberiam em lattes nenhum. Ainda que o resultado tivesse sido outro. Ainda que lá constasse mais uma linha com um “prêmio” concedido. A vida foi vivida. Com lattes ou sem lattes. Com prêmio ou sem prêmio. Inclusive – e muito intensamente – nestes últimos quatro anos.  Seguimos. Com um brinde a este a todos os outros fracassos que certamente virão. Dentro ou fora dessa tal academia. Pelos caminhos que forem sendo traçados. Que venham cheios de vida.

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