EU NÃO ESCREVO MAIS

Eu não escrevo mais. Não sei bem quando parei, como parei ou porque parei, mas a verdade é que eu nunca mais escrevi. E não foi por falta de vontade. Não consigo nem contar as tantas vezes que sentei em frente deste mesmo computador e olhei para a tela branca, a folha vazia e joguei nela palavras que escrevo em vermelho. Mas as palavras não saiam do jeito que eu queria, as frases ficavam por terminar e textos incompletos se empilhavam em folhas brancas não tão vazias, mas igualmente incompletas. Ante ao fracasso de colocar palavras no papel, ligo a tv e esqueço de escrever. A TV distrai.

Parei de escrever e não sei por quê. Talvez o escrever tenha se tornado mais sério, mais pesado, mais parte de uma rotina que a cada dia envolve mais as palavras. E são muitas as palavras. O escrever, antes minha terapia, virou modo de avaliação. E o medo de ser avaliada voltou com tudo. Escrever para ser lida, ainda que em outro contexto, ainda que em outro momento, me fez parar de escrever em letras vermelhas. Suspendi a parte de minha terapia que estava dando certo. Ser lida em outro contexto tirou de mim a capacidade de escrever por aqui.

Tentei entender a razão, pensei em mil motivos: a preguiça, o cansaço, a rotina, os afazeres, a vida corrida. Mas a vida sempre foi corrida, a preguiça sempre fez parte de mim e sempre tive coisas pra fazer. E ainda assim escrevia. Mas agora não mais escrevo. E me lembrei do dia em que fui jogar búzios pela primeira vez. Não faz muito tempo e fui mais por curiosidade do que por qualquer outra razão. Queria saber quem eram meus orixás, precisava de uma luz, um guia e que alguém me ajudasse a resolver questões que nem eu mesma sabia quais eram.

Então depois de uma longa tarde de caminhada e de uma breve ligação, lá fui eu. O jogo foi bom, “leve”, como me explicou Silvia. Não pretendo entrar nos pormenores daquele dia, basta apenar uma frase que me foi dita: “o teu problema é que tu pensa demais”. Admito que na hora aquilo não fez muito sentido. Mas porque pensar demais seria um problema? Pensar demais? Nunca! Se qualquer coisa eu penso de menos…afinal, tem sempre mais coisa pra ler, mais coisa pra fazer, mais metas a cumprir… se eu parar de pensar, aí sim que ferrou-se. Preciso pensar para seguir em frente.

E tenho pensado. Pensado muito, pensado sobre tudo e pensado até quando não me dou conta que estou pensando. Na verdade não sabia que estava pensando tanto. E não que o pensar faça mal,  longe disso. Mas há pensamentos e pensamentos. E o meu pensar me paralisou. Me fez olhar muito para dentro e pouco para o lado. Me fez imaginar demais e agir de menos. E o pior de tudo, eu sequer senti o pensamento tomar conta de mim.

E foi então que caiu a ficha: não senti o pensamento tomar conta porque ando ocupada demais pensando e, em algum momento pelo caminho, parei de sentir. Parei de sentir de tanto que pensei. E quando dei por mim já não escrevia mais. A escrita agora é atividade pensada, estudada, embasada. Se ganha nota, se é lido, se deve publicar. A escrita é pensamento e pensamento deve levar para algum lugar. Pensei tanto que nem senti o sentir indo embora.E ao deixar o sentir ir embora abri mão também de toda essa parte de mim que não se preocupava tanto, que dormia mais leve e que escrevia mais fácil.

Tem me feito falta sentir. Não tem me feito tão bem o pensar. Não esse pensar que me trava. A falta de sentir tem me tirado partes de mim que me faziam um pouco mais serena, um pouco mais calma, um pouco mais eu. E sem sentir, já não mais escrevo. Meu escrever não é pensado, é sentido e já não consigo escrever. O escrever sem medo, sem amarra, sem julgamento e sem temor. Deixar que as palavras saiam meio tortas, meio sem sentido e até com alguns erros de português. Escrever sentindo e saber que o sentir a gente vai mudando e construindo. Não tenho conseguido escrever. Mas hoje escrevi.