Augusta Drive

uma tarde quente de primavera, daquelas em que o ar que corta o corpo dá a impressão de que o verão quer mesmo pedir passagem. Não estava mais acostumada a ter primaveras em maio. Parou e se viu novamente naquela rua de casas sem grades, em frente à casa de esquina, em uma cidade tão longe da sua. Foi quase como se estivesse chegando lá pela primeira vez, mas já fazia 12 anos que havia estado lá. Era uma volta. Olhou para caixa de correio que fica ao pé da escadaria que termina na imponente e trabalhada porta branca, daquelas que até então só estava acostumada a ver nos filmes. A casa ficava em cima de uma pequena inclinação e o verde do grande gramado contrastava com os tijolos da construção. Casas de tijolos não são comuns por aquelas bandas. Afastou-se o suficiente para ver a grande janela da sala que fica ao lado direito da porta e as duas janelas dos quartos a esquerda. Era aquela a casa com a qual tanto sonhara mesmo antes de conhecer.

Ao fim da longa rampa de asfalto, estava a porta da garagem e do lado direito, quase como um detalhe, podia ver a porta que dá para o porão. A pequena porta, havia sido sua entrada mais comum naquela linda casa de tijolos. A porta que ficava bem em frente a seu quarto. Ah, se aquela porta falasse poderia contar muito sobre a vida de 12 anos atrás. 12 anos haviam se passado e estava ali parada na rua das casas sem grade.

A tarde ia caindo e resolveu dar uma volta pela quadra. A mesma quadra em que tantas vezes caminhara. Enquanto caminhava pensava em como havia chegado até ali. A casa, a rua, a vida de 12 anos atrás eram o sonho.  Um sonho improvável de uma menina de 17 anos que achava que a vida seria mais completa aonde as casas não têm grades. Queria viver como os filmes, queria ver a vida de outro jeito, experimentar o mundo de outra forma e tanto fez que conseguiu. Hoje se lembra daquela menina tão cheia de expectativas, tão cheia de sonhos, e ri satisfeita por ela ter conseguido o que queria. E sorri ainda mais ao pensar que aquela menina tão cheia de vontades não fazia ideia das tantas vezes que suas vontades iam mudar ao longo dos anos. Mas talvez estivesse nisso a graça de tudo: nunca saber quando se vai mudar de vontades.

As casas sem grade continuavam iguais. Olhando de fora, podia até se ter a ilusão de que nada mudara por ali. Mas ela sabia que muito havia mudado naquele tempo. Conhecia bem demais o interior de sua própria casa para saber que mesmo a vida de filme muda com a vida real e que nada era mais o mesmo. Mas hoje seria. Hoje, enquanto caminhava pela rua, sentiu ter 17 anos de novo. E pensou em como corria para aquela mesma rua quando a vontade de estar aonde não se estava ficava forte demais para suportar. Era naquele asfalto que saia para caminhar quando precisava pensar sobre os grandes dilemas de sua vida aos 17 anos. E lembrou que foram aquelas ruas que a viram se apaixonar pela primeira vez. Foi naquela rua estranha, naquele lugar distante, naquela vida que as vezes nem parecia sua, que conheceu o primeiro amor da sua vida. E sorri mais uma vez ao lembrar de quando acreditava que aquela seria sua única vida e de que aquele seria seu único amor. E imagina que talvez seja essa mesmo a graça do primeiro amor: a gente ainda não saber que nessa vida se vivem várias vidas e que nessas vidas se encontram muitos amores.

Olhou para o céu e a noite já havia caído. Pegou seu celular para iluminar o caminho e lembrou-se de quando saia para caminhadas com sua irmã e tinham que levar uma lanterna para que os carros a enxergassem. A rua da casa sem grades também não tinha calçada e postes. Era escura e numa época em que celulares ainda não eram comuns, saiam de lanterna para longas caminhadas e conversas noturna. As casas também não são iluminadas e, quando cai a noite, só se vê pequenas janelas de luz em meio a escuridão. E as estrelas. Porque na rua sem postes as estrelas parecem brilhar mais forte.

A quadra ia chegando ao fim e podia ver a linda casa de esquina. Pensou na coragem daquela menina de 17 anos que esperando viver o inesperado, tomou a dianteira de sua vida, enfrentou seu medo do desconhecido e realizou seu sonho. E em como seu sonho havia lhe dado uma casa, uma família, amigos, um amor e uma vida tão diferentes daquilo que conhecia.  Olhou para a casa já não tão estranha e deu-se conta que ela seria sempre sua casa, sua vida, sua família, não importa quantos anos passassem. E antes de entrar mais uma vez pela porta que havia sido tantas vezes sua fuga nas noites quentes de verão, recordou do quanto havia chorado ao ter que se despedir daquela vida. E de como durante muitos anos chegou a pensar que a vida seria sim mais completa na rua em que as casas não têm grade. E agora, 12 anos depois, abre a pequena porta que já não dá mais para o seu quarto e sorri ao lembrar da menina que não sabia que sua vida seriam muitas e que talvez nunca estivesse completa. A rua sem grades não é só sua rua, mas é uma linda lembrança de que muitas outras ruas também eram e que há tantas outras que poderão vir a ser. Basta ter a coragem daquela menina de 17 anos.

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JOGADOR DE FUTEBOL

Tenho um primo que quer ser jogador de futebol. Eu sei que muitos guris tem esse sonho, mas ele não sonha em ser jogador de futebol, ele luta por isso. E há uma grande diferença entre sonhar e ir à luta.

Acredito que as melhores lutas começam com o sonho. Mas também acredito que os sonhos, sem as lutas, tendem a permanecer sonhos, sem jamais se concretizarem.

Só que meu primo, ao contrário da maioria, decidiu correr atrás. Terminou o segundo grau e começou a percorrer o Brasil jogando futebol. Fez testes, arrumou empresário, jogou em diversos clubes de vários estados do país. Times menores, maiores, de todo tipo, de todo lugar. Chamam e ele vai tentar a sorte e o sucesso na terra que for.

Alguns questionam porque não continua os estudos enquanto persegue seu sonho, mas ele sabe que esse é o momento de dedicar todas as suas forças para aquilo que ele quer: ser jogador de futebol.  Confesso que não me lembro de tê-lo visto jogar e não sei como é tecnicamente, mas admiro sua garra e sua força de vontade. Tenho certeza que é um grande jogador.

Tem apenas 18 anos e já sabe que um sonho não vivido é apenas um sonho. Ah, e como são tristes os sonhos não colocados em prática. A covardia de não tentar é tão mais triste que a decepção pela derrota.

E vendo meu primo, me questiono sobre minhas vontades, conquistas e os tantos sonhos que ficaram só no plano das ideias. É curioso, mas as maiores frustrações não são por aquelas tentativas que deram errado, as minhas maiores frustrações são pelos pensamentos que nunca se transformaram em tentativa. Pouco me lembro das derrotas verdadeiras, mas a falta de iniciativa, o não tentar, pode me perseguir por muito tempo.

E lembro-me dos sonhos conquistados. Da alegria em finalmente conquistar aquilo que sempre se almejou. É indescritível viver o que tanto se quis. Ainda que seja de outra maneira, de outra forma, por um breve instante.

Muitas vezes a própria busca pelo sonho acaba alterando o objetivo final. Ou quando chegamos até onde queríamos, percebemos que não era bem aquilo, e muda o sonho, começa a nova luta. Essa é uma das graças da vida.

Divirto-me com quem pergunta por que meu primo não desiste e segue o caminho tradicional: faculdade, trabalho, família. Me divirto porque penso que esqueceram que ele tem uma vida toda pela frente, um caminho inteiro a traçar e que agora, nesse exato momento, enquanto eu e você estamos em casa, ele está lá tornando seu sonho realidade.

Não sei se um dia meu primo será famoso ou ganhará muito dinheiro jogando bola, mas hoje ele é sim um jogador de futebol. Meu primo, de apenas 18 anos, está vivendo e construindo seu sonho. E quanto a nós?